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sábado, 18 de maio de 2013
JOÃO MOURA JR.
Especial para o Estado
Os mesmos sem roteiro tristes périplos
Leitura cuidadosa dos versos de Drummond revela uma obra desenvolvida com rigor, marcada sobretudo pela alta qualidade, e confirma a aproximação, feita por estudiosos, do autor de `Impurezas do Branco' com outros grandes nomes da literatura do século 20, que são Graciliano e João Cabral
Prefaciando a Poesia de seu amigo e conterrâneo Emilio Moura, que o editor José Olympio reuniu em livro em 1953, Carlos Drummond de Andrade viu nela "a dramaticidade de uma contínua e irremissível perguntação". A observação se aplica, sem tirar nem pôr, à obra poética do próprio Drummond.
Também ela se coloca "sob o signo da pergunta", e basta folheá-la ao acaso para verificar a enorme quantidade de sinais de interrogação que a pontuam.
E às vezes as interrogações existem mesmo sem a presença visível de tais sinais, como na terceira e quinta estrofes do poema que abre essa obra em grande estilo, o Poema das Sete Faces:
O bonde passa cheio de pernas:
Pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
Não perguntam nada.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Se a ausência de vírgulas no segundo verso citado parece sugerir a mistura de pernas no bonde -- e, conseqüentemente, a mistura de raças que caracteriza a sociedade brasileira --, a ausência do ponto de interrogação nas perguntas dirigidas a Deus em ambas as estrofes denotam a falta de ênfase da poesia modernista em geral e da de Drummond em particular. Pois a característica do poeta mineiro que de imediato salta à vista é "o aspecto seco e antimelódico" de seu verso, para citar aquela que continua sendo a melhor análise de conjunto de sua obra poética, o ensaio de Antonio Candido intitulado justamente Inquietudes na Poesia de Drummond, incluído no livro Vários Escritos.
Secura - O crítico tem razão em aproximá-lo, sob esse aspecto, de Graciliano Ramos, o qual, segundo outro grande poeta, João Cabral de Melo Neto, limpa ao sol "suas mesmas vinte palavras (...) do que não é faca:// de toda uma crosta viscosa,/ resto de janta abaianada", referência provável à prosa adiposa de outro romancista seu contemporâneo, Jorge Amado. No plano internacional, o estranhamento que a dicção drummondiana trouxe à poesia do Modernismo brasileiro é comparável ao operado na moderna poesia italiana por outro gigante da lírica do século que finda, Eugenio Montale.
Mas, voltando às interrogações que perpassam a obra poética de Drummond, aquele que talvez seja o mais popular de seus poemas, José, do livro do mesmo nome, não é senão um desfiar de perplexidades. A estrofe final descreve assim o personagem, que pode ser qualquer um, mas que também pode ser um alter ego, uma máscara do poeta:
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
Não deixa de ser curioso que o poeta se represente em movimento ao longo de boa parte de sua obra (Affonso Romano de Sant'Anna, em Drummond, o Gauche no Tempo, já havia observado uma "sensação de trânsito e transitoriedade" e a utilização de verbos indicativos de movimento em diversos poemas). É como se as inquietações que o assaltam lhe impusessem um ir e vir constante, freqüentemente interrompido por um obstáculo qualquer, uma pedra ou a "máquina do mundo". É o que ocorre em outro de seus poemas mais célebres, No Meio do Caminho:
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra (...)
Antonio Candido, no ensaio citado, chamou a atenção para a leitura optativa facultada pelo terceiro verso, que pode ser fim do segundo ou começo do quarto. Assim, a pedra que barra o caminho do personagem-poeta é como que visualmente representada no poema. Por outro lado, a inversão, no quarto verso, das partes da oração que constitui o segundo (retomando, ao mesmo tempo, a construção do primeiro) dá a sensação de mecanismo emperrado, girando sobre si mesmo.
Esse ir e vir está graficamente presente em outro poema, desta vez do segundo livro, Brejo das Almas, que tem o título sintomático de Não se Mate.
O suicídio, por sinal, é um tema obsessivo em Drummond, e culminará com Homenagem, de As Impurezas do Branco, arrolando diversos nomes de escritores suicidas (o de seu amigo de toda a vida, Pedro Nava, certamente estaria entre eles, não fosse o poema anterior à sua morte; mas em A Um Ausente, incluído em seu último livro, Farewell, que põe um ponto final também em grande estilo numa obra que prima do começo ao fim pela qualidade, Drummond aborda o assunto de modo comovente). Não se Mate tem início com o poeta insistindo consigo mesmo, na terceira pessoa, para que se acalme em face dos imponderáveis do amor:
Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será. (...)
Assinalemos, de passagem, a interrogação que, embora não formulada diretamente, encerra a estrofe. O que interessa sublinhar aqui é o deslocamento, ao longo do verso, do nome Carlos nas duas únicas outras vezes em que aparece no poema (sempre associado ao substantivo amor, que também só aparece nessas ocasiões). Na terceira estrofe:
O amor, Carlos, você telúrico,
A noite passou em você,
e os recalques se sublimando (...)
E na quarta e última:
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos (...)
Esse deslocamento se faz acompanhar do aumento de duas sílabas do primeiro para o segundo verso e de uma sílaba deste para o terceiro, sendo eles respectivamente um hexassílabo, um octossílabo e um eneassílabo:
Carlos, sossegue o amor (...)
O amor, Carlos, você telúrico (...)
é sempre triste, meu filho, Carlos (...)
Melancolia - Somado ao alongamento progressivo do verso, o deslocamento do nome Carlos representa visualmente o caminhar "melancólico e vertical" do personagem (José Guilherme Merquior, em Verso Universo em Drummond, chamou a atenção para o recurso freqüente ao zeugma semântico por parte do poeta, que neste caso une um atributo moral, a melancolia, a outro físico, a verticalidade). Por outro lado, o fato de o personagem atravessar de ponta a ponta os versos, assim como a rima toante do último com a palavra "claro" do verso que o antecede imediatamente no poema, praticamente um anagrama de Carlos, sugerem uma reviravolta, um girar sobre os próprios passos, ou seja, o ir e vir, o andar para lá e para cá típico de alguém desassossegado.
Deixando de lado essas minudências, vale a pena recordar um belíssimo poema pertencente a Novos Poemas, o livro imediatamente posterior à Rosa do Povo.
O título dele é Aliança, e descreve com delicada ironia a simbiose entre um homem e o seu cão. Este "viaja imóvel", dormindo enrodilhado no chão, provavelmente sob a mesa, já que o pé do homem -- o poeta -- "avança/ encontrando a tepidez do seu corpo/ que está ausente e presente,/ consciente do que pressão vale em ternura". Enquanto isso, à mesa, o poeta luta em vão por se exprimir -- luta essa dramatizada também em outro poema, O Lutador, de José, como lembra John Gledson em Poesia e Poética de Carlos Drummond de Andrade --, até que, irado, se ergue e o cão com ele:
(...) De um salto,
decapitando seu sonho,
eis que me segue. Percorro
a passos largos, estreito
jardim de formiga e de hera.
A inquietação do poeta, que o leva a caminhar a esmo, seguido pelo cão, parece não redundar em nada, até que, bafejado pelo que, à falta de melhor termo, chamaremos de inspiração, retorna à mesa e se põe a escrever, "arrumando esses bens/ em preto na face branca", o cão novamente a seus pés.
Trava-se então um diálogo entre o sonho recém-interrompido -- e que é como um regaço que se recompõe -- e o cão:
Baixa os olhos. Mal respira.
O sonho, colo cortado,
se recompõe. Aqui estou,
diz-lhe o sonho; que fazias?
Não sei, responde-lhe; apenas
fui ao capricho deste homem.
Negócios de homem: por que
assim os fazes tão teus?
Que sei, murmura-lhe. E é tudo.
Sono de agulha o penetra,
Separando-nos os dois.
Mas se...
As reticências com que finda o poema sugerem que o que não passaria à primeira vista de companheirismo canino talvez de fato fosse ajudazinha instrumental do sonho na súbita inspiração do poeta por intermédio dessa espécie de divindade doméstica rastejante. O que a princípio é um poema bastante simples sobre a "aliança" entre um homem e seu cão se mostra carregado de ambigüidades ao supor essa forma rebaixada de visitação da musa. Talvez por isso, Affonso Romano de Sant'Anna a tenha visto como "um sonho rejeitado" que persegue o poeta "pela realidade afora, apesar de decapitado"; por outro lado, mesmo assinalando a inaceitabilidade de tal interpretação e chamando a atenção para a afirmação do próprio Drummond, num texto de 1953, de que se tratava de um cão, John Gledson identifica aí uma "coisa" indefinível "porque completamente fora do alcance da consciência".
Mas o que quer dizer o poeta com esse cão hierofânico? Que a poesia, a despeito de toda idealização, obedece a leis insondáveis? Que somente assim é possível escapar ao malogro com que se encerram tanto O Lutador ("Tamanha paixão/ e nenhum pecúlio") quanto Procura da Poesia ("...as palavras./ Ainda úmidas e impregnadas de sono,/ rolam num rio difícil e se transformam em desprezo"), passada a euforia participante de Consideração do Poema ("...Tal uma lâmina,/ o povo, meu poema, te atravessa")? Bem feitas as contas, não deixa de ser apropriado àquele que, num dos mais belos poemas longos da poesia moderna em língua portuguesa, A Máquina do Mundo, de Claro Enigma, recusa o conhecimento dos segredos do universo que, numa visão, lhe é ofertado numa "estrada de Minas, pedregosa", já que "em vão e para sempre repetimos/ os mesmos sem roteiros tristes périplos", e segue "vagaroso, de mãos pensas".
O Estado de São Paulo,
Caderno 2,
16.12.2000
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